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Modismo ou excesso de policiamento linguístico

Fernanda Blaya Figueiró*

politicamente corretoNão consigo entender o que está acontecendo com alguns segmentos no Brasil. Ontem a presidente Dilma foi vaiada por usar o termo “portadores de deficiência física”, e, que eu saiba, esse era “termo politicamente correto”. Pesquisei na rede e constatei que existe essa expressão. Para quem escreve, e fala, no Brasil o excesso de “policiamento” corre o risco de criar uma “paranoia linguística”. Não sei quem cria e recria esses termos da moda, mas algumas discussões ficam restritas a um meio tão pequeno e tão excludente que se tornam alienadas do resto da sociedade. Já na contracultura, as mulheres viram “as cachorras”, os bandidos “os caras”… Acho que estamos precisando de equilíbrio em vários aspectos.

Quem sabe uma cartilha da evolução dos termos e dos motivos que levaram às modificações não ajude as pessoas comuns, e também nossa Chefe Maior, a entender esses novos termos? O que deve e o que não deve ser dito? Da minha parte, como escritora, não gosto desta discriminação e do preconceito que algumas palavras estão ganhando. O brasileiro sempre primou pela liberdade de expressão, pelas diferenças regionais e pela criatividade na linguagem. A Presidente tem que garantir a melhoria no acesso, o direito de ir e vir de todos os cidadãos, trabalhar para que haja uma melhoria nos serviços públicos ou privados, um transporte eficiente, saúde, educação, cultura, segurança, cidadania para todos os brasileiros. Sou contra o excesso de puritanismo linguístico, pois acredito que possa levar a relacionamentos falsos.

Todos precisamos ser respeitados, sim. Mas sem cair na falsa ideia de que proibir o uso de alguns termos vai acabar com a discriminação ou com o preconceito. Na minha opinião, isso pode levar a uma alienação, ou a um afastamento ou segregação de grupos. Se eu tiver medo de uma palavra não vou mais usá-la e o grupo, ou ser, que a ela estiver ligado, vai desaparecer do meu foco, do meu universo. Não será parte da minha vida, não será um assunto meu. Eu preferiria ter mais liberdade de expressão, inclusive entendendo melhor o que levou as pessoas a abominarem um termo e elegerem, momentaneamente, outro.

Quanto a vaiar é uma expressão legitima e também acredito que deve continuar existindo. Assim como é legitimo a Presidente se desculpar. Agora, os que vaiaram devem refletir na gesto e os que foram vaiados também. Em pouco tempo, se as coisas continuarem assim, a literatura brasileira vai empobrecer e a linguagem também, porque as possibilidades de uso das palavras vai ser tolhida. Nomes, características, particularidades de personagens e de tramas vão desaparecer. Não teremos mais rosto, só uma máscara facial indefinida, perderemos nossa bela diversidade, seremos o que usa tal marca, o que come tal produto, o que está com tal perfume, maquiagem, tipo de cabelo, dentro de tal veículo. Exagero? Talvez.

Um exemplo de notícia do futuro: pessoa da melhor idade, usando uma bolsa de fibra sintética, importada da China, atravessava a avenida fora da faixa de segurança, quando uma pessoa jovem que circulava em sua bicicleta defasada, ou seja, sem a manutenção adequada dos freios, colidiu no poste e sua placa de identificação ao se soltar atingiu a bolsa da outra, que devido ao calor do impacto teve escoriações no braço. Ambos foram conduzidos a uma delegacia de polícia para a autuação… A autoridade policial (talvez delegado caia em desuso) deverá buscar informações sobre a procedência da bolsa, a situação legal da bicicleta e as infrações cometidas por ambas as pessoas. A Presidente optou pela prerrogativa de poder ficar em silêncio, já que devido a gravidade do ocorrido… Em outra localidade 80 pessoas foram vítimas de uma mesma execução, fato antigamente chamado de “chacina”, o gabinete optou também pelo silêncio.

*Fernanda é poetisa e escritora

Foto: blogdoambientalismo

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