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NÃO É BEM ASSIM

(LEIA NO BLOG DO LEITOR – ROBERTO FISSMER – PROFESSOR)>>>>

NÃO  É  BEM  ASSIM ===

Encontrando-me em Vila Velha, município vizinho a Vitória, capital do Espírito Santo, epicentro da grave crise enfrentada pela sociedade capixaba em decorrência da paralisação das atividades prestadas pelos Policiais Militares, vivenciei não apenas o temor das pessoas comuns diante da criminalidade que não desperdiçou a circunstância para mostrar a sua face mais perversa mas, também, o dilema de familiares de uma classe profissional impedida legalmente de se manifestar, de reivindicar, de protestar, enfim, de trazer a público as suas carências, as suas angústias, os seus dramas.
Diferentemente do carioca, que de modo geral não perde a oportunidade para ir à praia, deixando-a com um bom movimento durante todo o ano, observo que os moradores de Vila Velha não curtem com a mesma intensidade a sua orla que, ao meu ver, em nada perde para a zona litorânea fluminense. Entretanto, passei por dias de extrema perplexidade ao sair para caminhar e me deparar com ruas totalmente vazias. Ninguém, nenhum veículo sequer estacionado ou circulando. As escolas, os bancos, o comércio, tudo fechado – restaurantes, lancherias, padarias, farmácias, supermercados, lotéricas -, parecia encontrar-me  no inverno num de nossos pequenos balneários gaúchos, embora estando em uma localidade com 480.000 habitantes fixos, em pleno verão.
Equipes de reportagens percorriam os principais municípios da Região Metropolitana, descrevendo em tempo real a situação caótica enfrentada em todos os setores. A tímida tentativa de reação das pessoas era contida pela falta de circulação do transporte coletivo, e desencorajada por ações violentas perpetradas por marginais e mostradas exaustivamente na mídia. Assim, o Estado que já atravessava num quadro de dificuldades na área da saúde, devido à falta de vacinas para imunizar aqueles que buscavam quase que de forma desesperada a proteção contra a febre amarela, viu-se frente aos postos de atendimento totalmente impossibilitados de abrirem suas portas.
Não foram apenas compromissos ou negócios que não se concretizaram mas, também, estabelecimentos comerciais de todos os portes arrombados e saqueados, automóveis furtados para que delinquentes pudessem deslocar-se praticando assaltos e, pior, vidas ceifadas que entram na conta do movimento reivindicatório. Os volumosos  prejuízos estão sendo contabilizados. Contudo, fico preocupado imaginando as consequências que advirão deste lamentável episódio, em que estiveram na linha de frente corajosas senhoras de idades variadas que, largando seus afazeres domésticos e outros tantos compromissos, enfrentaram desconfortavelmente ao longo de vários dias as intempéries, a fadiga e o estresse do confronto com atores políticos diversos, na busca de justas melhorias salariais e de condições adequadas de trabalho para os praças da Brigada que, todos reconhecemos, sobrevivem aos solavancos país afora. Estão saindo do embate sem nada do que pleiteavam. Nem mesmo um acordo que viabilizasse a absolvição de punições que, certamente, atingirão muitos membros da corporação. É difícil saber até que ponto os agentes envolvidos avaliaram este cenário que está agora se descortinando. Um acerto foi fechado entre autoridades e representantes das entidades de classe para devolver os policiais às ruas, sem mesmo contar com a presença das líderes femininas. Com isso, certamente, elas não contavam tanto é que se negaram a aceitar o que fora pactuado e permaneceram diante dos portões dos quartéis tentando dar uma sobrevida ao ato, impedindo a saída de quem estivesse fardado. Tudo em vão, visto que a Polícia Civil, Guardas Municipais e as forças federais se uniram no preenchimento do vazio deixado pela Brigada Militar, ainda que revelando deficiências.
O governo promete não arredar pé no tocante às penas,  valendo-se daquilo que preceitua a lei que, no âmbito dos militares, é extremamente austera, até como advertência para outras categorias do funcionalismo que possam estar alimentando ideias semelhantes de interrupção das atividades. Em assim sendo, como ficarão os atingidos e seus familiares diante de punições mais rigorosas? Quais caminhos seguirão? Com que motivação retornam ao trabalho?
A vida vai retomando o seu curso natural, mas podemos esperar por longas contendas na esfera do Judiciário em vista do ocorrido.

 

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