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No remelexo do Carnaval

Carnaval-no-Rio-de-JaneiroConheci o José Juvenal, popularmente chamado de Zé Remelexo. Seu apelido estava ligado ao fato da paixão que ele nutria pelo Carnaval.

Quando os cordões carnavalescos começavam a fazer as suas primeiras reuniões, lá estava o Zé Remelexo empregando a sua respeitosa, alegre e faceira colaboração. Dava sugestões para fantasias e até nas letras das marchinhas e gritos de guerra que os blocos iriam usar nas apresentações.

Zé Remelexo desenvolveu sua arte de verdadeiro carnavalesco ainda lá nos tempos do Trololó e do Cartolinha. Tinha decorado e sabia cantar todas as músicas. Na época, as marchas-rancho eram o máximo do romantismo no Carnaval. Quando elas eram entoadas nos salões, os foliões ficavam mais amorosos atrás de suas máscaras. “A Estrela Dalva, que no céu desponta/ E a Lua deixa tonta com tamanho esplendor/ E as pastorinhas com o brilho da Lua/ Vão cantando na rua lindos versos de amor…”.

Mais adiante, com o surgimento de mais blocos, como o Arco Íris, depois o Braço é Braço e o Madrugada, Zé Remelexo deu sua colaboração, inclusive usando fantasias para dar vazão a sua cantoria burlesca. Vestia-se de Pirata para cantar: “Eu sou, o pirada da cara de pau/ Do olho de vidro/ Cara de mau…”. Ou então enrolava-se num lençol, fazendo as fronhas de turbante para sair cantando: “Ala laô o o o o o o o/ Ó que calor, o o o o or/ O sol estava quente e queimou a minha cara…”.  Um dia apareceu fantasiado de Carmem Miranda: “Chiquita bacana lá da Martinica/ Se veste com a casca de banana nanica…”. Um dia quase foi preso. O guarda Clarival flagrou-o nas ruas da cidade de fralda e com um bico na boca, berrando: “Mamãe eu quero,/ Mamãe eu quero, / Mamãe eu quero mamar/ Me dá chupeta/ Me dá chupeta/ Me dá chupeta pro nenê não chorar…”.

Era uma figura admirável o Zé Remelexo. Muita gente já não lembra dele e os mais novos nem o conheceram. Ele teve auge de vida num Viamão que curtia, dentre outras coisas, a existência de um movimento de sem-terra quando desocupados ocuparam áreas perto de Itapuã, tendo como líder um cidadão semianalfabeto. Foi preso porque roubava gado, o abatia e vendia a carne clandestinamente, inclusive falsificando a pesagem em balanças viciadas. Fato que também ficou perdido no tempo. Mas o Carnaval continuou animado e outros blocos por aqui figuraram como o Roma e mais alguns que eu também esqueci o nome.

Hoje estamos com um Carnaval de rua, onde destacam-se as escolas de samba. Cada um é Zé Remelexo, buscando encontrar uma marchinha, uma marcha-rancho, um samba da pesada, atualizados, mas sempre vêm à mente aqueles acordes mais reminiscentes: “Quanto riso, ó quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão/ Arlequim está chorando pelo amor da Colombina/ no meio da multidão…”. Ou então: “É com este que eu vou sambar até cair no chão/ É com este que eu vou desabafar na multidão/ Mas se ninguém se atrever eu vou pegar meu tamborim/ E se a turma topar vai ter pra mim…”.

Foto: blog.decolar.com

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