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(Opinião) Santa Maria de todos os tempos

Ana Cecília Romeu*

tarsilapereira-cpovoQuando era adolescente, esperava a semana inteira para que chegasse a balada do sábado e se o carinha do blusão com a letra “A” me olharia. Ensaiava passos novos, a Madonna ditava as regras, e quando eu desobedecia me juntava ao Morrissey. Antes de sair, ouvia a listinha: “não se esquece do casaco” – é a única coisa de que me lembro, porque era a primeira, mas pelo tempo que minha mãe ficava falando acho que tinha mais umas dez ou 11.  Nem sempre ficava feliz, esperar pela “Take look at me now” e nada acontecer era muito chato, mas quando chegava em casa, dormia e esquecia.

A turma de amigos era sempre a mesma, formávamos uma espécie de “tribo da felicidade” um happy-face compartilhado, se nem tudo estivesse bom, ainda assim era divertido. Nunca pensávamos que poderia acontecer algo de fatal, não planejávamos o fim apenas os começos, queríamos vida e viver, e era isso a sua maneira que acontecia, às vezes menos, em outras mais, mas voltávamos para casa para lembrar os fatos que julgávamos importantes e censurar parte deles aos pais, “editar a matéria” de um jeito mais inocente, o que sempre funcionava.

Foi assim que descobri que o bicho papão da infância fora promovido na adolescência para “estranho”: – “não conversa com estranho”, “não beija um estranho”. E assim, todos meus namorados e amigos um dia, pelo menos por algumas horas, me foram estranhos. Mais tarde aprendi que os únicos estranhos perigosos eram os “culpados”, e desde então, passei a temer os culpados. Os culpados que têm responsabilidade, mas se escondem na nomenclatura “fatalidade”, como se as tragédias, aquelas que podem ser evitadas, ainda assim fossem obra divina.

Não conheci nenhuma das vitimas da tragédia de Santa Maria, mas é impossível não haver empatia, já fui adolescente, hoje sou mãe de alguém que um dia será adolescente, e quando se perde um filho, não se perde somente o que se tem, se perde o que se é.

Nunca senti a fumaça negra, por isso hoje escrevo estas quaisquer linhas, mas minhas asas estão encolhidas e meu voo se faz palavra pequena, mesmo que somada a outras de tantas milhares de pessoas, porque estamos num mundo onde da tragédia se faz grande audiência, até a próxima notícia. Onde se troca as palavras ‘vida’ e ‘futuro’, por ‘injustiça’ e ‘fim’.

*Ana é Publicitária e escritora

 Foto: Tarsila Pereira – Correio do Povo

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